Impacto econômico da COVID-19 no Brasil: podemos culpar o isolamento social?

by Luiz Celso Gomes-Jr

May 26, 2020

Covid19

Desde o início da pandemia, o governo do Brasil evita a implementação de medidas rigorosas de isolamento social usando como justificativa o possível impacto das ações na economia. Esta estratégia já se diferenciava das adotadas pela maioria dos países e causava preocupação entre os especialistas. Hoje, indicadores posicionam o Brasil como um dos países que mais perderam economicamente como resultado da pandemia do coronavírus. Além disso, o país se tornou o líder em mortes diárias por COVID-19 e é um dos principais epicentros da epidemia no mundo. Este artigo analisa a estratégia adotada pelo país e suas consequências, quantificando ações e resultados para compará-los com os números de outros países.

Em termos econômicos, o Brasil se destaca como um dos países mais afetados pela pandemia. Como indicador de impacto econômico, usamos aqui o Composite leading indicator (CLI), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OECD). O CLI é um indicador criado para identificar tendências de atividade econômica e é atualizado com mais frequência que outros indicadores como o PIB. O gráfico abaixo mostra como o Brasil sofreu um impacto econômico maior em comparação com os países do BRICS analisados pela OECD (Índia, China e Rússia) e também em comparação aos demais países analisados pela OECD com dados atualizados.

Dividindo as perdas econômicas entre as de antes e depois do início da pandemia nos países, o Brasil mantém a tendência de ficar entre os países mais afetados, como mostra o gráfico abaixo.

Este mau desempenho econômico do Brasil acontece ao mesmo tempo em que o país implementa medidas de isolamento social mais brandas que os outros países. Diversos indicadores mostram esta tendência. Por exemplo, o país teve comparativamente uma menor redução em poluição automotiva, indicando que menos pessoas ficaram em casa no início da epidemia, como mostra o gráfico abaixo.

Para medir a redução de poluição, tomamos como base o início da epidemia em cada país (a partir da 5ª morte) e calculamos a média de redução de poluição por uma semana (usando janeiro de 2020 como referência de valores esperados). A barra de países similares (Similar Countries) representa a média dos valores de países mais similares ao Brasil em múltiplas variáveis socioeconômicas. Os países considerados são Argentina, Irã, Colômbia, Costa Rica, Panamá, Chile, Uruguai, Cuba, Equador e Arábia Saudita.

Tendências parecidas são obtidas usando o índice de mobilidade do Google, calculado usando dados de GPS de celulares com sistema Android, como mostra o gráfico abaixo.

 

Considerando as ações tomadas pelo Brasil e as comparando com as de outros países, as tendências se mantêm. Para medir a intensidade das políticas de contenção dos países, usamos o índice de rigorosidade de ações da Oxford (COVID-19 Government Response Tracker). O gráfico abaixo mostra as comparações deste índice.

Portanto, claramente o Brasil adotou medidas de contingência mais brandas que os outros países nas comparações acima. E esta falta de ação se traduz numa maior taxa de mortes por COVID-19 como consequência da resposta inadequada. O gráfico abaixo mostra como a taxa de crescimento de mortes no país é mais alta que nas demais regiões em comparação.

 

A taxa de crescimento de mortes é calculada em um período de 18 dias após o início da epidemia nos países. Este período é usado para podermos medir as consequências das respostas iniciais, uma vez que a doença requer alguns dias para se estabelecer e eventualmente causar óbitos.

Todos estes dados sugerem que o argumento do governo brasileiro não se sustenta. Não há uma associação direta entre implementação de medidas de isolamento social e impacto econômico. Isto pode ser visto no gráfico abaixo, comparando o impacto econômico com as taxas de mobilidade da população.

 

O gráfico acima mostra que independente do nível de isolamento dos países, a tendência de redução do CLI é praticamente constante. Se analisarmos agora o nível de isolamento e seu impacto em termos de mortes, uma tendência de redução clara aparece:

Portanto, como os especialistas têm afirmado desde o início, medidas de isolamento social salvam vidas.

O governo brasileiro adotou uma estratégia inadequada e uma retórica não corroborada pela realidade dos dados. Esta estratégia está amplificando os danos econômicos e humanitários no país. Ações mais efetivas precisam ser implementadas urgentemente. Caso contrário, a população continuará sofrendo as consequências das políticas inadequadas por muitos anos.