O Brasil quer retomar as aulas, mas se esqueceu de fazer o dever de casa

by Luiz Celso Gomes-Jr

July 31, 2020

Covid19

É inquestionável a importância da educação presencial para a saúde das crianças e para a rotina das famílias. Todos queremos um país mais desenvolvido, logo todos queremos que as crianças tenham a melhor educação possível, o mais rápido possível. Mas também é inquestionável que estamos passando por uma crise complexa e que a retomada das aulas deve ser feita com cautela. Retomar as aulas precipitadamente pode ter consequências graves para a saúde dos envolvidos diretamente, e ainda prolongar nossa situação de descontrole da pandemia atual com consequências sanitárias e econômicas para toda a sociedade. 

Como bons alunos, podemos estudar o comportamento dos outros países na retomada das atividades escolares para termos uma ideia da nossa situação no Brasil. Diversos países já começaram a retomar as atividades presenciais após o fechamento das escolas. Podemos comparar o contexto desses países usando dados de um projeto da Universidade de Oxford que acompanha indicadores de políticas públicas dos países, incluindo questões de educação.

A figura abaixo mostra todos os países que relaxaram as restrições de aulas presenciais de acordo com o acompanhamento de Oxford. Os períodos em vermelho escuro representam restrições máximas, com todos os níveis escolares sem aulas presenciais. Os períodos em laranja representam um nível mais baixo de restrição, permitindo aulas presenciais para alguns níveis escolares. Veja que diversos países já passaram para o nível laranja e até para o nível amarelo (sem exigência de fechamento das escolas, apenas recomendação). Alguns países, como Austrália, China e Alemanha voltaram a níveis mais altos de restrição, mas em geral os países mantiveram a tendência de flexibilização. Mas as coisas ficam mesmo interessantes quando analisamos como esses países estavam no momento em que começaram a diminuir as restrições.



Para a retomada das atividades escolares, é importante que o país esteja controlando a epidemia e que seja capaz de identificar novos focos de transmissão rapidamente. Na prática, isto quer dizer que o país deve ter um número controlável de pessoas doentes e uma boa capacidade de testar a população. No gráfico abaixo analisamos estas questões para todos os países acima e adicionamos o Brasil para comparar. Claramente o Brasil tem muito mais casos diários e menor capacidade de teste do que os outros países tinham quando começaram a retomar as aulas presenciais. 



A linha tracejada no gráfico mostra a proporção de testes por casos recomendada pela OMS, que é de 5% de resultados positivos. Veja que os países estavam abaixo ou muito próximos dessa linha no momento da flexibilização. Já o Brasil está muito distante. Uma retomada agora, com um número alto de casos e sem capacidade adequada de testes, seria um experimento sem precedente. O país ainda não fez o seu dever de casa e as consequências podem ser sérias. O retorno às aulas deve ser avaliado de acordo com a realidade das cidades, após o controle do número de casos e da implantação de estratégias eficientes de testagem. Protocolos de higiene e distanciamento devem ser seguidos com seriedade. Precisamos todos nos envolver, contribuir e exigir medidas responsáveis das autoridades.

 

Colaboraram: Josie Helen Siman e Guilmour Rossi